Chamaram de Manifesto

Posted on 06/10/2010 por

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O problema latente do que é ser artista. O que é ser artista? A arte está nos olhos de quem vê. Mas o artista, com sua obstinação, repetição, insistência, acaba sugerindo ao outro um olhar.

Como se vê? O que se vê? O que se vê é o que se produz? Não é válido, para mim, perguntar “O que é arte?”ou dizer “É bonito. Mas é arte?”. Não é uma questão de nomenclatura. O signo lingüístico já está desgastado.

Acontece ser essencial, como homens, pessoas vivas, que sejamos atravessados por sentimentos. O artista entra aí pra mim. Ele luta pelo não-embotamento das sensações do homem. Da sensibilidade do homem. Como passar do tempo, dos anos, certas obrigações sócio-econômicas nos ensinam a controlar nossa emotividade. Aprendemos a não nos espantarmos, a não chorarmos, a rirmos controladamente.

Há quanto tempo você não chora copiosamente? Liberadamente? Há quanto tempo você não tem um ataque de riso da barriga ficar dura e doendo de tanta gargalhada? Há quanto tempo você não pára para ver os raios do sol atravessando as folhas das árvores? Há quanto tempo você não se permite o tempo de sentir?

Aceleramos a vida porque os sentimentos demandam tempo. Sem tempo não temos surpresas sentimentais. Sem tempo não podemos descobrir, lentamente, aos poucos, que estamos nos apaixonando. Sem tempo não podemos descobrir que amamos, ou que deixamos de amar.

Só os sentimentos-bazooka interrompem a correria das tarefas cotidianas – quando trabalhamos para nos afastarmos de nós mesmos. Uma morte súbita, uma paixão louca, uma traição, um desespero.

A arte precisa dilatar o tempo para abrir espaço dentro dos homens para a emotividade florescer.

A arte puramente técnica é resultado (e crítica também, por que não?) do anestesiamento em que vivemos hoje.

Andamos como máquinas desesperadas para esquecer que estamos vivos. Que sentimos, que choramos, que gozamos. A arte deve falar disso. E deve lutar por isso.

Devolver ao homem os seus sentidos, para que possa se ver e ver o outro. Devolver ao homem a capacidade de ver, escutar, sentir, provar, cheirar. E mais, deixar o que for captado por seus sentidos tomar sentido dentro dele. Não basta sentir um cheiro, é preciso que sejamos afetados por ele.

É preciso que a vida nos afete.

Levanto a bandeira dos grandes sentimentos:

O prazer dos raios de sol esquentando a pele.

Um pedaço de chocolate derretendo na boca.

O olhar de quem se ama.

O choro de um amigo

A dor de uma morte.

O buraco de uma falta.

É pra isso que há arte.

 

Gabriela Bonomo

Rio, Junho de 2010

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Posted in: Randômicas