Olhar para ouvir

Posted on 03/09/2010 por

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Rio de Janeiro, sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Que presente que é essa performance Qual é a sua História?… É gostoso ouvir as pessoas, conhecê-las, saber como pensam, o que sentem, suas angústias, suas  felicidades. É bom saber que as pessoas gostam de falar, se abrem para nós. É uma confiança bonita e, por assim dizer, de graça. Conhecemos as mais diversas pessoas, com vivências as mais diferentes. É muita generosidade delas a entrega de momentos tão pessoais. Acabamos nos tornando amigos. É interessante. Amizades instantâneas, geradas pelo encontro performático.

Ontem foi muito especial. Além de sentarmos para ouvir histórias, tivemos participantes pedindo para escutar, além de falar. As pessoas gostam de ouvir também. Me faz pensar sobre o que move esse interesse. Por que o homem se interessa pelas histórias de pessoas que nem conhece? Mas assim é conosco também. Nos propomos a ouvir as histórias, a princípio, sem nenhum outro objetivo que não seja ouvir. Esses textos são consequência natural. Se não fossem textos seriam papos, conversas que temos entre nós mesmas do que ouvimos dos participantes. Nos comovemos com as vidas dos outros, assim como os outros se comovem com as vidas alheias. Aí está uma semente do teatral. Da arte em geral, já que a arte sempre toca num ponto do humano, mas do teatro principalmente. Eu odeio esse papo, “ah, o teatro é tão especial e incrível”, mas aqui é uma constatação. Sim, o teatro nos emociona porque chegamos a conhecer, mais ou menos profundamente, personagens (que em última instância são pessoas) e suas vidas. E mais do que só a vida delas, mas como se sentem no desenrolar dessa vida.

Nos encontros com os participantes sempre me pego pensando sobre como seleciono o que ouço. Eu me pego, no ato do ouvir, filtrando as palavras. E o filtro que uso sou eu mesma, quero dizer, são as minhas experiências de vida e o olhar que venho construindo sobre a vida a partir das minhas experiências. Muitas vezes me vejo espelhada naquele que está a minha frente. Acho pontos de encontro entre suas vidas e as minhas. Experiências parecidas, sentimentos parecidos. E tem vezes em que o que fica pra mim é justamente aquilo que é muito diferente de mim mesma. As coisas me revoltam, me inquietam. Tem muita vida pulsando dentro das pessoas querendo sair. Adoro encontrar uma fresta e escancará-la até o outro deixar mostrar o que guarda tão dentro de si. Penso que faço isso muito através do olhar. Como é importante o olhar. O olhar determina o corpo nessa performance. A receptividade do olhar traz a receptividade do corpo. A presença e abertura do olhar, o foco, faz a escuta ficar atenta. Os corpos e os depoimentos se expandem através da segurança construída no olhar.

Gabriela Bonomo

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